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Eros & Psique

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Entre os muitos relatos legados pela Antiguidade, poucos conservaram tão intensamente sua capacidade de atravessar os séculos quanto o mito de Eros e Psiquê. Há narrativas que pertencem a uma época; outras parecem sobreviver a todas elas. Este mito pertence à segunda categoria.

Sua permanência talvez decorra de uma característica comum às grandes narrativas simbólicas: elas jamais se deixam reduzir a um único significado.

Os mitos não falam apenas de acontecimentos, mas de estados da alma, de experiências fundamentais da existência e de dimensões da realidade que dificilmente poderiam ser expressas apenas por conceitos. Sua verdade não reside exclusivamente no enredo, mas nas imagens que continuam a despertar reconhecimento interior em sucessivas gerações de leitores.

Traduzir um mito, portanto, não consiste apenas em transpor palavras de uma língua para outra. Significa procurar preservar uma experiência de sentido: sua atmosfera espiritual, seu ritmo, sua força imaginativa e o horizonte simbólico em que a narrativa originalmente respira. Toda tradução é, em alguma medida, uma interpretação. Esta edição assume conscientemente esse caráter hermenêutico.

Não se buscou aqui nem a rigidez de uma reconstrução arqueológica, nem a atualização arbitrária do relato segundo as sensibilidades do presente. Procurou-se outro caminho: permanecer fiel ao espírito da tradição, permitindo que o texto continue vivo para o leitor contemporâneo sem perder sua antiga espessura simbólica. Essa fidelidade compreende tanto a arquitetura narrativa legada por Apuleio quanto o horizonte simbólico em que sua obra continua a ser compreendida. Por essa razão, os nomes das divindades aparecem, em regra, em suas formas gregas, não como uma correção do texto latino, mas como expressão da tradição através da qual o mito atravessou os séculos e permaneceu vivo na memória do Ocidente.

As ilustrações históricas que acompanham esta edição participam do mesmo propósito. Reunidas a partir do acervo do Metropolitan Museum of Art, elas testemunham como o mito continuou a ser contemplado e recriado ao longo dos séculos. Gravadores, pintores e artistas do Renascimento reconheceram em Eros e Psiquê não apenas uma narrativa exemplar, mas uma imagem da alma humana em sua travessia entre o visível e o invisível. Essas obras não ilustram simplesmente o texto; pertencem, elas próprias, à história de sua recepção.

A tradição, nesse sentido, não constitui um obstáculo à compreensão: ela é a condição da própria compreensão. Não lemos fora da tradição, mas a partir dela. Toda leitura autêntica nasce do encontro entre o horizonte antigo da obra e o horizonte vivo daquele que a contempla.

Também por isso, a linguagem desta tradução não foi tratada como simples instrumento de transmissão verbal. Em certas obras, a palavra não comunica apenas um conteúdo: participa da própria revelação do sentido. Ritmo, cadência, imagem e sonoridade tornam-se inseparáveis da experiência simbólica que o texto procura oferecer.

Esta edição nasce, assim, do encontro entre diferentes respirações do mito. Apuleio permanece como a fonte narrativa fundamental e o artífice da extraordinária arquitetura simbólica da narrativa. Entre as vozes modernas que acompanharam este trabalho, a tradução de Ruth Guimarães ofereceu uma sobriedade literária e uma densidade imagética de grande valor, enquanto o poema em doze cantos de Robert Bridges contribuiu para recuperar algo da musicalidade e da atmosfera encantatória que frequentemente se atenuam nas versões excessivamente literais. Nenhuma dessas obras foi tomada como modelo exclusivo; cada uma contribuiu, à sua maneira, para aproximar esta edição da atmosfera espiritual que o mito preservou através dos séculos.

O resultado não pretende substituir o texto antigo, nem oferecer sua interpretação definitiva. Procura, antes, criar as condições para um novo encontro entre o leitor e uma narrativa que permanece viva justamente porque nunca cessou de falar à alma humana. Esta tradução deseja apenas restituir esse encontro, preservando, tanto quanto possível, a força simbólica, a beleza poética e a atmosfera espiritual que atravessam o relato de Apuleio. Certos livros não foram escritos apenas para serem compreendidos; foram escritos para serem contemplados, habitados e, por fim, para transformar aqueles que se deixam ler por eles.

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