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Eros & Psique
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Entre os muitos relatos legados pela Antiguidade, poucos conservaram tão intensamente sua capacidade de atravessar os séculos quanto o mito de Eros e Psiquê. Há narrativas que pertencem a uma época; outras parecem sobreviver a todas elas. Este mito pertence à segunda categoria.
Sua permanência talvez decorra de uma característica comum às grandes narrativas simbólicas: elas jamais se deixam reduzir a um único significado.
Os mitos não falam apenas de acontecimentos, mas de estados da alma, de experiências fundamentais da existência e de dimensões da realidade que dificilmente poderiam ser expressas apenas por conceitos. Sua verdade não reside exclusivamente no enredo, mas nas imagens que continuam a despertar reconhecimento interior em sucessivas gerações de leitores.
Traduzir um mito, portanto, não consiste apenas em transpor palavras de uma língua para outra. Significa procurar preservar uma experiência de sentido: sua atmosfera espiritual, seu ritmo, sua força imaginativa e o horizonte simbólico em que a narrativa originalmente respira. Toda tradução é, em alguma medida, uma interpretação. Esta edição assume conscientemente esse caráter hermenêutico.
Não se buscou aqui nem a rigidez de uma reconstrução arqueológica, nem a atualização arbitrária do relato segundo as sensibilidades do presente. Procurou-se outro caminho: permanecer fiel ao espírito da tradição, permitindo que o texto continue vivo para o leitor contemporâneo sem perder sua antiga espessura simbólica.
As ilustrações históricas que acompanham esta edição participam do mesmo propósito. Reunidas a partir do acervo do Metropolitan Museum of Art, elas testemunham como o mito continuou a ser contemplado e recriado ao longo dos séculos. Gravadores, pintores e artistas do Renascimento reconheceram em Eros e Psiquê não apenas uma narrativa exemplar, mas uma imagem da alma humana em sua travessia entre o visível e o invisível. Essas obras não ilustram simplesmente o texto; pertencem, elas próprias, à história de sua recepção.
A tradição, nesse sentido, não constitui um obstáculo à compreensão: ela é a condição da própria compreensão. Não lemos fora da tradição, mas a partir dela. Toda leitura autêntica nasce do encontro entre o horizonte antigo da obra e o horizonte vivo daquele que a contempla.
Também por isso, a linguagem desta tradução não foi tratada como simples instrumento de transmissão verbal. Em certas obras, a palavra não comunica apenas um conteúdo: participa da própria revelação do sentido. Ritmo, cadência, imagem e sonoridade tornam-se inseparáveis da experiência simbólica que o texto procura oferecer.
Esta edição nasce, assim, do encontro entre diferentes respirações do mito. Apuleio permanece como a fonte narrativa fundamental e o guardião de sua extraordinária arquitetura iniciática. A tradução de Ruth Guimarães ofereceu uma sobriedade literária e uma densidade imagética de grande valor, enquanto o poema em doze cantos de Robert Bridges contribuiu para recuperar algo da musicalidade e da atmosfera encantatória que frequentemente se atenuam nas versões excessivamente literais.
O resultado não pretende substituir o texto antigo, nem oferecer sua interpretação definitiva. Procura, antes, criar as condições para um novo encontro entre o leitor e uma narrativa que permanece viva justamente porque nunca cessou de falar à alma humana. Esta tradução deseja apenas restituir esse encontro, preservando, tanto quanto possível, a força simbólica, a beleza poética e a atmosfera espiritual que atravessam o relato de Apuleio. Certos livros não foram escritos apenas para serem compreendidos; foram escritos para serem contemplados, habitados e, por fim, transformar aqueles que se deixam ler por eles.
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